30 de julho de 2010

      





 


Magistral crescimento


Por José Antonio Mariano


Número de farmácias de manipulação no Brasil pode crescer com a criação de entidade que visa a dar melhores condições comerciais e a padronizar os procedimentos dos PDVs

No ano de 754 d.C, Bagdá, atual capital do Iraque, era a mais próspera cidade – e também capital – do califado islâmico abássida. Foi em Bagdá que surgiu a primeira escola de medicina do Oriente Médio e foi também na cidade que se ergueu a primeira farmácia do mundo. Sem as megacorporações, que nem nos próximos mil anos surgiriam, tal farmácia só podia ser de manipulação. Essa arte refinada, com um quê de alquimia, desenvolveu-se ao longo dos anos em vários países, entre eles o Brasil, ao qual chegou em 1549, quando um boticário desembarcou com os homens de Tomé de Souza, o fundador de Salvador. Quatrocentos e sessenta anos depois, o mercado de farmácias de manipulação (FaMa) brasileiro exibe um vigor invejável. O país é o maior mercado mundial de farmácias de manipulação, com cerca de 7,8 mil estabelecimentos, que atendem mais de 60 milhões de pessoas por ano.

Segundo a Anfarmag (Associação Nacional dos Farmacêuticos Magistrais), entre 2002 e 2007, o segmento cresceu 40%. Essas farmácias são as que mais empregam farmacêuticos – dos quais 70% são mulheres – e são ainda responsáveis por um faturamento anual de R$ 1,3 bilhão, ou 9% de todo o mercado brasileiro de medicamentos. “Esse é um setor para o qual o empreendedor que deseja investir em franquia deve olhar com atenção”, afirma Mário Cansado de Souza, sócio-diretor da SóFranchising, consultoria especializada em franquias. “Dados da ABF (Associação Brasileira de Franchising) dão conta de que o número de empresas franqueadas nos segmentos de saúde e beleza passou de 8.340, em 2001, para 11.452, em 2007.” Ele cita como exemplo o Grupo Pharmapele. “Os investidores abriram sua primeira loja em Recife, Pernambuco, em 2000; cinco anos depois, já contavam com 27 lojas em vários outros Estados brasileiros.”

E não só na franquia que o setor avança. A própria Anfarmag – entidade que reúne cerca de 70% das 7.847 farmácias de manipulação registradas nos Conselhos Regionais de Farmácia no país – pretende que a atuação desses estabelecimentos no segmento varejista cresça expressivamente em 2009. Para tanto, quer sair dos 15% atuais de participação para nada modestos 50%. Segundo Hugo Guedes de Souza, farmacêutico e presidente da Anfarmag, o setor vem experimentando um crescimento explosivo nos últimos anos. Só para se ter uma ideia, o número de FaMas cresceu de 2.100, em 1998, para 5.500, em 2005. As quase 8 mil farmácias registradas ainda não garantem a fatia do mercado que a Anfarmag quer, mas já são um bom começo. Isso porque 85 delas juntaram-se para criar a Infar (Integração em Negócios Farmacêuticos), em julho do ano passado, com objetivos bem estabelecidos.

Clube de compras

A ideia não é nova. Em conjunto, as farmácias podem negociar melhores condições de compra e, com isso, vender mais e melhor, adquirindo competitividade. Antes de iniciar formalmente suas atividades, a central já somava 150 associados e tem a meta de fechar 2009 com, pelo menos, 500 integrantes. "A tendência é fortalecer os pequenos estabelecimentos, já que a negociação conjunta deverá não só reduzir os preços dos nossos insumos como também garantir nosso fornecimento", declarou Guedes – também presidente da Infar – a um jornal de economia de São Paulo. A entidade criará ainda produtos de marca própria (membros ganham a oportunidade de terem produtos exclusivos no setor) e estabelecerá as normas para a farmácia certificada, com a criação de uma norma específica auditável, com a possibilidade da criação de uma rede varejista. Um cartão de crédito com a bandeira da Infar também poderá ser lançado.

Além de melhorar suas condições comerciais, a Infar propicia uma interação mais aprimorada com os órgãos reguladores, sobretudo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que mantém uma marcação cerrada e constante junto a esses estabelecimentos. A iniciativa da Infar vem em excelente hora. Em um artigo publicado em abril deste ano na Agência Estado, Guedes afirmou que “dentre os segmentos que atendem à saúde da população, o setor das farmácias magistrais é um dos mais bem inspecionados pelo Sistema Nacional de Vigilância Sanitária“. Entretanto um artigo publicado no site da ETCO (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial), em 29 de setembro do ano passado, www.etco.org.br/noticia.php?IdNoticia=2143, diz que “segundo a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são poucas as farmácias de manipulação que seguem adequadamente a regulamentação das Boas Práticas de Manipulação”.

Ainda de acordo com a matéria da ETCO, “em 2000, o relatório final da CPI dos medicamentos havia identificado diversas práticas antiéticas e ilegais por parte das farmácias de manipulação no Brasil, tais como produtos manipulados e dispensados ao público com o nome comercial, de propriedade da indústria, produtos que exigem tecnologia especial, como a desintegração rápida ou prolongada no organismo, proteção gástrica etc., sendo manipulados em cápsulas de gelatina, que não oferecem tais condições; manipulação e produção de associações de substâncias proibidas pela vigilância sanitária; fórmulas ‘secretas’, sem os nomes genéricos nas rotulagens e oferta de produtos manipulados como alternativa a produtos comerciais e a produtos falsificados, em anúncios de jornais”. Procurado por PharmaBusiness, Guedes preferiu não se manifestar.

Nos EUA

Mas a Infar tem atuado. Um de seus trabalhos mais importantes foi a radiografia da qualidade técnica que fez do setor – em julho de 2008, e que resultou na auditoria de 870 farmácias – 29 fornecedores de insumos, 14.200 matérias-primas e 15 mil produtos. Além disso, a entidade indicou 44 procedimentos operacionais, disponibilizou 120 trabalhos científicos e aplicou estudos biofarmacêuticos em 50 fármacos. Na área de treinamento, procedeu à reciclagem de 18 mil farmacêuticos e 25 mil colaboradores, muitos deles por meio dos 27 cursos por meio da TV Anfarmag. “Eu acho que é uma questão de tempo para as FaMas começarem a manipular fármacos mais complexos”, acredita o dr. Walmor Nascentes, bioquímico da Universidade Federal do Pará. “Elas pelo menos são as mais competentes e já dominam a técnica para formular cefalexina, amiodarona, ISRSs em geral; acho que os antirretrovirais chegarão logo.”

Para Cesar Koppe Grisolia, atual professor-associado da UnB (Universidade de Brasília), doutorado em Ciências Biológicas pela USP (Universidade de São Paulo), as drogarias do futuro tornar-se-ão pequenos laboratórios, uma realidade que, no Brasil, só será possível nas FaMas. Isso porque – promessa da medicina genômica – os medicamentos ficarão cada vez mais específicos a ponto de se tornarem individual drugs. Hoje, o mais próximo a que se chega é dosar a formulação, mas os fármacos em si são os mesmos. Mas mesmo a Indústria Farmacêutica (IF) vem se movimentando em torno da “genomia” dos medicamentos. No ano passado, um laboratório americano lançou uma droga para doenças cardiovasculares especialmente destinada aos negros. A variação genética dos afro-americanos predispunha condições não encontradas em outras raças.

Especialistas brasileiros afirmam que como o país é altamente miscigenado, a elaboração de individual drugs seria mais complicado. Entretanto a criação de medicamentos a partir de estudos do genoma humano permitirá uma redução nos efeitos colaterais e nas reações alérgicas, algo que hoje pode ser conseguido via FaMas, de acordo com a dosagem prescrita. Mas, nos EUA, a realidade da medicina genômica poderá chegar com muito mais força e, na verdade, já se encontra por lá. Isso porque a maioria das compouding pharmacies (CoPha), nome pela qual são conhecidas as FaMas, associadas que estão a IACP (International Academy of Compounding Pharmacists), constituem-se em autênticos laboratórios. Em 2008, havia 7.748 só no Estado da Flóriada, e embora, segundo uma lei federal, qualquer farmácia licenciada possa manipular medicamentos, apenas 42 delas eram CoPhas.

Novo estilo de vida

Vários dos grandes nomes do setor estão há décadas operando. Empresas, como: a Abrams Royal Pharmacy, de Dallas, Texas; California Pharmacy & Compounding Center, de Newport Beach, Califórnia; Kronos Science Laboratory, de Las Vegas, Nevada; Solutions Pharmacy, de Chattanooga, Tennessee; Madison Pharmacy Associates, LLC, de Madison, Wisconsin; Market Compounding Pharmacy; de Northridge, Califórnia, são uma constante na vida dos norte-americanos ainda que estes prefiram as comodidades dos convenience stores em que se transformaram – e faz tempo – Walgreens, RiteAids, CVS Caremark, Duane Reade e outras redes. Além disso, as CoPhas volta e meia ficam no olho do furacão, atacadas (e defendidas) por setores da imprensa e lobbies constituídos junto aos poderes públicos americanos. Mas analistas da MarketResearch acreditam que o segmento crescerá nos próximos anos, movido pelo novo estilo de vida, o qual o americano está tentando adotar. É o que se espera por aqui também.



 
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