30 de julho de 2010

      




A crise e a terceira inteligência


Por Floriano Serra*



Há anos, por meio de livros, artigos e palestras, venho falando repetidamente sobre a terceira inteligência, que, em todos os segmentos da vida, propõe outros crivos comportamentais, além daqueles da razão e da emoção. Volto a fazê-lo aqui motivado pela crise que assola o mundo e que se tornou assunto de todas as horas e justificativa para quase todas as mazelas, que vêm ocorrendo no planeta. Como se sabe, essa crise econômica, a pior desde a década de 1930, nasceu da ganância, do egoísmo e da falta de ética de alguns íntimos de Wall Street e que, apesar da enorme quantidade de gurus e experts em economia que pululam por aí, não foi nem de longe prevista ou imaginada, pegando o mundo de surpresa.

Um enfoque que não se costuma ler e ouvir sobre as análises dessa crise é que ela nasceu exclusivamente de motivações emocionais e racionais – e, por isso, deu no que deu. A condição humana de ser emocional e racional é maravilhosa, mas não assegura isoladamente a paz e a evolução da raça. Quando mal direcionadas, as ações motivadas exclusivamente pela emoção buscam o prazer/poder ou a fuga de problemas/punições. Nesses casos, o comando para a ação (ou a falta dele) é “faço porque me agrada / porque quero” ou “não faço porque não me agrada / não quero”.

Se alguém faz coisas ou toma decisões apenas porque lhe agrada ou porque quer, não haverá garantia alguma de que essa ação ou decisão será boa também para as outras pessoas, a sociedade, o mundo. Apenas refletirá ambição e egoísmo pessoal e assim não será saudável, legal, ético nem útil para os demais. Alguém poderá contra-argumentar: “Ah, mas é justamente para evitar isso que existe a racionalidade! Se unirmos as duas inteligências, a racional e a emocional, então teremos a ação ideal, certo?”. Errado.

O processamento racional do conhecimento e das informações nos conduz à ação dita “lógica” e nos induz a fazer aquilo que nos convém ou nos interessa, e não necessariamente ao que é legal, ético e saudável para as demais pessoas e comunidades – e essa crise é a grande prova disso. As grandes fraudes divulgadas foram as mais cerebrais e inteligentes possíveis, tanto que levaram um tempo enorme para ser descobertas.

Em essência, razão e emoção não têm moral nem ética, porque, patologias à parte, sua dinâmica de ação parte desse binômio: “me interessa” (ou “me convêm”) ou “me agrada” (ou “me satisfaz”). Falta um terceiro crivo que lhe dê positivismo.

O crivo que está faltando é o da avaliação das consequências da ação ou da decisão para com o outro, seja amigo, parente, colega de trabalho, mercado, comunidade, sociedade, nações. É a esse crivo que venho chamando terceira inteligência, que é a faculdade que tem o Homem de sobrepor à razão e à emoção uma outra essência que dá transcendência às suas ações e um sentido de direção voltado para o bem-estar próprio e o dos outros. Ou seja, uma postura de vida necessariamente ganha.

A esse terceiro crivo comportamental, aquele que decide a qualidade da ação ou da decisão, venho chamando (na falta de melhor expressão) espiritual, apesar de nada ter a ver com práticas e conceitos religiosos ou doutrinários, como algumas pessoas podem supor. Essa dimensão espiritual, que, infelizmente, permanece em estado latente na maioria das pessoas, convive com a razão e a emoção, mas pouco interage com elas. Tem a ver com o desejo voluntário e pessoal de compartilhar o bem, pela consciência de que tanto uma família, uma equipe, uma empresa ou um bairro quanto a sociedade e o mundo inteiro são partes de uma grande família, o que nos torna todos responsáveis pelo que ocorre no planeta.

A terceira inteligência é simples assim: ela sobrepõe-se a conveniências pessoais e a interesses meramente econômicos e materiais e caracteriza suas ações, sobretudo pela generosidade, ética e respeito ao próximo, de forma desprendida, exceto pelo desejo de ser útil. É ela que nos faz “transcender ao ego”, como diz Deepak Chopra, fazendo-nos substituir a pergunta “O que vou ganhar com isso?” por “Como posso ajudar?”. Há várias causas que originam crises, mas aquelas provocadas por questões de ética, moral e caráter certamente não existiriam sob a égide da terceira inteligência.

Nas empresas, por exemplo, a liderança ou o modelo de gestão que se fundamentar na terceira inteligência certamente terá colaboradores muito mais comprometidos, motivados, felizes e, por consequência, mais produtivos. Durante cinco anos, como diretor de RH de uma indústria farmacêutica, tive oportunidade de vivenciá-la na prática e funcionou perfeitamente, tanto que, por meio de duas conhecidas pesquisas nacionais, a empresa foi eleita pelos próprios funcionários, por cinco anos consecutivos, “uma das melhores para trabalhar no Brasil”.

Mas, enquanto não forem mudados os critérios de sucesso e poder na sociedade e no mercado, não será fácil vender-lhes a idéia da terceira inteligência. Paciência. Nem por isso deixarei de continuar fazendo minha parte, plantando essas sementes por aí. Em algum lugar, em algum momento, surgirão outros terrenos férteis, e, então, ouviremos muito menos falar em crises como essa.

Sonhar não custa nada.

* Floriano Serra é psicólogo, consultor, palestrante e presidente da SOMMA4 Consultoria em Projetos de RH e do IPAT – Instituto Paulista de Análise Transacional. É autor de vários livros e artigos sobre o comportamento humano.




  25/5/2009

Artigos em Destaque________________________________________

Somos todos estagiários da Vida  por Floriano Serra

A crise e a terceira inteligência  Por Floriano Serra*

Efeito Kwai: esquecendo o objetivo maior  Por Floriano Serra*

O sétimo sentido na seleção de pessoas  Por Floriano Serra*

Por quem os sinos dobram nas empresas  Floriano Serra*

Sinal amarelo: tem um demitido em casa!  Por Floriano Serra*

Tudo bem no ano que vem  Por Floriano Serra*

Você já fez alguém sentir-se importante hoje?  por Floriano Serra

 

Arquivo_____________________________________________________

25/5/2009 A crise e a terceira inteligência  Por Floriano Serra*

17/3/2009 Sinal amarelo: tem um demitido em casa!  Por Floriano Serra*

15/12/2008 Tudo bem no ano que vem  Por Floriano Serra*

6/10/2008 Efeito Kwai: esquecendo o objetivo maior  Por Floriano Serra*

8/8/2008 Por quem os sinos dobram nas empresas  Floriano Serra*

31/3/2008 O sétimo sentido na seleção de pessoas  Por Floriano Serra*

3/12/2007 O indulto de Natal nas empresas  Floriano Serra*

7/8/2007 Somos todos estagiários da Vida  por Floriano Serra

5/6/2007 Você já fez alguém sentir-se importante hoje?  por Floriano Serra

5/12/2006 Isso não existe!  por Floriano Serra

13/9/2006 Anorexia nervosa: a eterna briga com o espelho  por Silvana Martani

22/8/2006 Cultura de coaching: a sua empresa tem uma?  por Tadeu Alvarenga

19/7/2006 A missão de todos nós  por Floriano Serra



 
Receba nosso informativo quinzenal


Digite seu e-mail


 

LEGISLAÇÃO
Resolução SS nº 126
Prescrição/dispensação de medicamentos com nome do princípio ativo


EVENTOS
10º Congresso Brasileiro de Clínica Médica
16 a 18/10/2009
São Paulo


GENÉRICOS
Confira a lista atualizada de medicamentos genéricos

 
 
 

Quem Somos   |   Fale conosco   |   Condições de Uso